terça-feira, 26 de abril de 2011
A lição de Pirro na padaria
- Olá, seu Pirro! - disse o padeiro.
- ... - respondeu Pirro.
- Sete paezinhos, por favor, seu Manoel - disse o discípulo.
- Certo.
- Mas como você sabe se existem paezinhos? É preciso comer paezinhos? Afinal, é preciso discutir se é preciso comer paezinhos, se não se sabe sequer se paezinhos existem? Sabemos discutir, afinal? Sabemos o que é existência, afinal? Sabemos os que é qualquer coisa? Eu existo? Eu como? Ou sonho que como? Mas sonho? ... - divagou Pirro, sob o olhares admirados do seu discípulo.
- E aí? Ainda querem o pão? Tem cliente esperando. - perguntou o padeiro.
- Pão? Que pão? Quem é você? - respondeu o discípulo, sob as gargalhadas eufóricas de quem acabara de entender profundamente a filosofia do mestre.
- ... - concordou Pirro.
E ambos ficaram parados até um outro discípulo menos convencido passar e levá-los embora. O padeiro não entendeu nada e continuou no senso comum de vender paezinhos.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Filosofia do Povão
"Ah, mas a ciência provou isso."
A ciência do povão é um negócio distante que fica provando as coisas que passam a ser verdades incontestáveis.
Política:
"Político é tudo ladrão."
A política do povão é aquele bando que fica de terno e gravata roubando um dinheiro aí, que ninguém sabe muito bem de onde vem.
Educação:
"Não arrota na mesa, moleque."
A educação do povão é o menino que toma bênção do vovô, come sem usar as mãos e não arrota na mesa (se arrotar, põe a mão na boca e pede perdão).
Metafísica:
"Hoje sonhei com a vovó, ela me falava só que estava bem onde estava."
A metafísica do povão é sonhar com morto e orar de noite.
Estética:
"Liiiiiiiindooooo!"
A estética do povão é chorar por causa de cantor sertanejo.
Lógica:
"Isso não tem lógica!"
A lógica do povão é uma força estranha que organiza as relações reais, que devem seguir a lógica.
Se fosse bom, seria assim
quarta-feira, 13 de maio de 2009
O ataque do heideggeriano
- Ora, vejamos... muito bem, "casa". A palavra "casa" resulta em "casamento", portanto, se dois "casados" não moram mais na mesma casa, não se pode dizer que estão casados: voltaram a ser namorados. Mais ainda, "namorado" é "enamorado", "apaixonado", o que quer dizer que, se o seu marido foi trabalhar fora depois de quinze anos de casados, nem namorados vocês continuam sendo. Casa no latim está mais para "casebre, choupana", enquanto domus é o correspondente de "casa". Aí está a origem de os casamentos sem restrições em nossa sociedade serem mais comuns entre os mais pobres, enquanto os mais ricos preferem a separação de bens.
E já que falamos de "casa" em latim, falemos de livro, que é erudito.
O livro te faz uma promessa: livro-te. O livro está ligado à liberdade. Li-vro, se li, livro-me. Estranho é que o correspondente inglês book pode assumir um sentido de comprometimento, de negação da liberdade: I am booked, que significa "comprometido a fazer algo"; ou mesmo by book, que é algo parecido com "como manda o figurino". O pensamento saxão sempre foi comprometido com amarras empíricas, pois eles sempre lidaram com books, enquanto os filósofos de línguas neo-latinas tiveram mais proximidade com o liber latino.
E já que falamos de "livro" em inglês, falemos de table, já que o livro deve estar lá.
A "mesa" é a mediação, o meso. A família está mediada pela mesa, no jantar. Os amigos também. Há sempre a mesa no meio. As reuniões sem mesa são nuas, porque há de existir a mediação entre as mentes, já que mesa em latim é mensa, muito próxima de mens, mente. Mensa é a mediação entre as mentes que se sentam para o debate. Uma mensa redonda é o verdadeiro meso, pois deixa os debatedores equidistantes. Mais uma vez, os saxões expressam a pobreza de seu pensamento ao não ligarem mind e table. É certamente por isso que os EUA são tão intransigentes em reuniões da ONU.
E, en passant, "ONU" e "EUA" não são mera coincidência...
Te cuida, Herr Heidegger. O heideggeriano não tem tua erudição, mas tem força de vontade e muita abobrinha pra dizer. E quem sabe ele não ataca novamente?
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Ratio FM 2
Ad verecundiam: "O Einstein concorda comigo." Isso quando você está discutindo futebol. Ou política. E a platéia, ouriçada, pensa: "nossa, que cara inteligente, sabe tudo que o Einstein pensava, e o Einstein era quem concordava com ele."
Ad hominem: "Mas você assiste Big Brother, por que está falando mal do BBB?" Esse é o tipo que, em vez de argumentar a favor de sua tese, ataca o adversário. Logicamente é irrelevante um ataque desse, mas funciona bem com bêbados, que pensam: "nossa, que cara inteligente, acabou com o Fabinho e ainda por cima fez uma defesa indiscutível da qualidade do BBB."
O ad hominem ainda tem uma variante. Às vezes você está falando do Lula, por exemplo, e dizem: "ah, mas ele bebe, não tem um dedo, fede, faz metáforas de futebol, fala errado, aquela barba dele me irrita etc." Bom, o Einstein também não era nenhum Brad Pitt, então, a relatividade é conversa fiada. E logo esse tal de Einstein, que é um argumento forte quando estamos falando de futebol.
Ad ignorantiam: "Mas os ETs têm que existir, porque você não pode pensar que não existem num universo desse tamanho!" Esses ETs! Já que não tem como provar que não existem, existem. E vão nos matar...
Ad baculum: "Fala isso mais uma vez que eu vou embora." Este é um exemplo de ad baculum civilizado. O pior é: "fala isso mais uma vez que eu quebro sua mandíbula." Esta falácia é pouco eficaz contra lutadores de jiu-jitsu. Mas eles são os melhores nessa forma de argumentação. Que coerência!
Ad populum: "Ah, mas todo mundo vai votar no Lula (implícito: só você que não)." Incorporação de Duda Mendonça. Poderia chamar também argumento ad publicitarium. E tem aquela do "mas todo mundo prefere a churrascaria Tropeiro, seu burro!" Esse "todo mundo" é indiscutível mesmo.