segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Músicas de filósofo

A filosofia hoje me auxilia a viver diferente assim.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Filosofia do Povão

Ciência:

"Ah, mas a ciência provou isso."

A ciência do povão é um negócio distante que fica provando as coisas que passam a ser verdades incontestáveis.

Política:

"Político é tudo ladrão."

A política do povão é aquele bando que fica de terno e gravata roubando um dinheiro aí, que ninguém sabe muito bem de onde vem.

Educação:

"Não arrota na mesa, moleque."

A educação do povão é o menino que toma bênção do vovô, come sem usar as mãos e não arrota na mesa (se arrotar, põe a mão na boca e pede perdão).

Metafísica:

"Hoje sonhei com a vovó, ela me falava só que estava bem onde estava."

A metafísica do povão é sonhar com morto e orar de noite.

Estética:

"Liiiiiiiindooooo!"

A estética do povão é chorar por causa de cantor sertanejo.

Lógica:

"Isso não tem lógica!"

A lógica do povão é uma força estranha que organiza as relações reais, que devem seguir a lógica.






Se fosse bom, seria assim

Horóscopo:


TOURO (21 abr. a 20 mai.)


Clima astral tenso de hoje quer dizer que você, Fragoso, será despedido. Bom momento para refazer as contas a partir do seguro-desemprego e distribuir currículos, embora você já esteja com quarenta e cinco anos e a vida inteira tenha trabalhado na mesma coisa. Entretanto, a Quitéria vai ficar ao seu lado nesse momento turbulento do cruzamento de Plutão com uma estrela-anã. Pelo menos não será ela que cruzará com outro, mesmo você sendo desse signo sugestivo, não é, Fragoso? De qualquer jeito, em um ano, Netuno estará mais próximo do sol e você melhorará de vida. Até lá, aproveite para tomar cerveja na segunda à tarde e jogar sinuca, porque antes da proximidade de Netuno você só terá entrevistas frustradas. Beijinho!






quarta-feira, 13 de maio de 2009

O ataque do heideggeriano

Um sujeito comum ousou pronunciar a palavra "casa" na frente de um heideggeriano...


- Ora, vejamos... muito bem, "casa". A palavra "casa" resulta em "casamento", portanto, se dois "casados" não moram mais na mesma casa, não se pode dizer que estão casados: voltaram a ser namorados. Mais ainda, "namorado" é "enamorado", "apaixonado", o que quer dizer que, se o seu marido foi trabalhar fora depois de quinze anos de casados, nem namorados vocês continuam sendo. Casa no latim está mais para "casebre, choupana", enquanto domus é o correspondente de "casa". Aí está a origem de os casamentos sem restrições em nossa sociedade serem mais comuns entre os mais pobres, enquanto os mais ricos preferem a separação de bens.


E já que falamos de "casa" em latim, falemos de livro, que é erudito.


O livro te faz uma promessa: livro-te. O livro está ligado à liberdade. Li-vro, se li, livro-me. Estranho é que o correspondente inglês book pode assumir um sentido de comprometimento, de negação da liberdade: I am booked, que significa "comprometido a fazer algo"; ou mesmo by book, que é algo parecido com "como manda o figurino". O pensamento saxão sempre foi comprometido com amarras empíricas, pois eles sempre lidaram com books, enquanto os filósofos de línguas neo-latinas tiveram mais proximidade com o liber latino.


E já que falamos de "livro" em inglês, falemos de table, já que o livro deve estar lá.


A "mesa" é a mediação, o meso. A família está mediada pela mesa, no jantar. Os amigos também. Há sempre a mesa no meio. As reuniões sem mesa são nuas, porque há de existir a mediação entre as mentes, já que mesa em latim é mensa, muito próxima de mens, mente. Mensa é a mediação entre as mentes que se sentam para o debate. Uma mensa redonda é o verdadeiro meso, pois deixa os debatedores equidistantes. Mais uma vez, os saxões expressam a pobreza de seu pensamento ao não ligarem mind e table. É certamente por isso que os EUA são tão intransigentes em reuniões da ONU.


E, en passant, "ONU" e "EUA" não são mera coincidência...
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Te cuida, Herr Heidegger. O heideggeriano não tem tua erudição, mas tem força de vontade e muita abobrinha pra dizer. E quem sabe ele não ataca novamente?

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Ratio FM 2

Alguns argumentos são falácias, mas são sempre decisivos numa discussão de boteco qualquer. É que nos bares os egos estão inflados, bêbados e todos estão gritando. Vamos falar de alguns desses argumentos:


Ad verecundiam: "O Einstein concorda comigo." Isso quando você está discutindo futebol. Ou política. E a platéia, ouriçada, pensa: "nossa, que cara inteligente, sabe tudo que o Einstein pensava, e o Einstein era quem concordava com ele."

Ad hominem: "Mas você assiste Big Brother, por que está falando mal do BBB?" Esse é o tipo que, em vez de argumentar a favor de sua tese, ataca o adversário. Logicamente é irrelevante um ataque desse, mas funciona bem com bêbados, que pensam: "nossa, que cara inteligente, acabou com o Fabinho e ainda por cima fez uma defesa indiscutível da qualidade do BBB."
O ad hominem ainda tem uma variante. Às vezes você está falando do Lula, por exemplo, e dizem: "ah, mas ele bebe, não tem um dedo, fede, faz metáforas de futebol, fala errado, aquela barba dele me irrita etc." Bom, o Einstein também não era nenhum Brad Pitt, então, a relatividade é conversa fiada. E logo esse tal de Einstein, que é um argumento forte quando estamos falando de futebol.


Ad ignorantiam: "Mas os ETs têm que existir, porque você não pode pensar que não existem num universo desse tamanho!" Esses ETs! Já que não tem como provar que não existem, existem. E vão nos matar...


Ad baculum: "Fala isso mais uma vez que eu vou embora." Este é um exemplo de ad baculum civilizado. O pior é: "fala isso mais uma vez que eu quebro sua mandíbula." Esta falácia é pouco eficaz contra lutadores de jiu-jitsu. Mas eles são os melhores nessa forma de argumentação. Que coerência!


Ad populum: "Ah, mas todo mundo vai votar no Lula (implícito: só você que não)." Incorporação de Duda Mendonça. Poderia chamar também argumento ad publicitarium. E tem aquela do "mas todo mundo prefere a churrascaria Tropeiro, seu burro!" Esse "todo mundo" é indiscutível mesmo.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Tipologia dos marxistas

Filósofo tem de vários tipos. Mas, em geral, os tipos só se diferenciam por seguidores de autores. P.ex.: nietzscheano costuma ser porra-louca; kantiano costuma ser correto, metódico e bem vestido; platônicos são arrogantes, acham que a filosofia terminou em Platão; e outros tipos. Entretanto, nenhuma escola tem tanta diferença tipológica quanto a marxista:

O religioso

Este tipo marxista é o mais comum. Para ele, entre o céu (que não existe) e a terra (que são as condições materiais de existência) há Marx, o profeta que indicou o caminho para a Terra prometida, cuja localização outros seguidores não souberam procurar direito. O capital funciona como um diabo cheio de artimanhas, que embotam o raciocínio daqueles que ainda não viram a luz marxista. "Reacionário" e "burguês" são adjetivos que estão para "pagão" e "lúcifer".

O inexorável

Para este marxista, meio stalinista, a história necessariamente ruma para o fim do capitalismo, que tem "contradições insolúveis" e "crises periódicas" que se intensificarão até a auto-destruição do sistema. Não tem Keynes que resolva. Nem boas intenções. A ciência de O Capital já deu o rumo da história, assim como um objeto cai em direção ao centro da Terra. O sitema ruirá. Vê quem é inteligente.

O contraditório burguês

Esse marxista é daqueles que não veem problema em amar Victor e Léo e ainda assim ser marxista roxo. E ainda dizem: "eu sou eu, cada um cada um". Individualistas que acreditam que marxismo é solidariedade, coisa de gente de bom coração, então viram socialistas. Em geral se informam pelo Jornal Nacional. "Consumista, sim, mas fútil, não". Na verdade, não sabem nem o que é marxismo, mas são.

O ponderado

O ponderado é o marxista que não demoniza o capitalismo nem os burgueses, nem acredita no socialismo inevitável, mas também vê os problemas de não ter autonomia, de ser guiado pela indústria. Porém, não faz nada, porque pondera que a revolução é impossível no mundo de hoje. Pondera tanto que é quietista. Pondera tanto que é chamado de "reaça" pelos religiosos, "burro" pelos inexoráveis e "babaca" pelos contraditórios burgueses. Nem é tido como marxista, mas ele sabe que é.

O ativista

Este tipo é o marxista das antigas, das Farc, do MST, do Hugo Chávez. Marxista mesmo, anti-imperialista, lutador, "o povo unido jamais será vencido", guerrilheiro, desestruturador do sistema. Nem precisa teoria, o negócio é luta. Nunca leu Marx, age Marx. E quem achar que Marx estava errado, toma tiro. Simples e direto. A luta de classes nunca precisou ler Marx pra acontecer, só acontecia.

O acadêmico

Esse marxista é defensor de uma escola marxista específica. Ou é gramsciano, ou é althusseriano, ou luckacsiano, ou leninista, ou trotskista, ou marciano, ou venusiano, ou lunático. Mas, mesmo os gramscianos, ficam nos gabinetes. Subversão? É ser boêmio no meio dessa sociedade escravizante; e dar aulas. No fundo, preferem o capitalismo, pois assim têm assunto acadêmico pra um pós-doutorado aqui e um livrinho acolá. Competitividade burguesa? É. E Deus os livre da liberdade alheia: aí, a ciência se torna senso-comum.


quarta-feira, 1 de abril de 2009

A Náusea...

No Brasil, a pena máxima de liberdade é de 30 anos, mas, segundo Sartre, a pena deveria ser perpétua em todo o mundo. "Não existe condenação à liberdade por tempo limitado", afirma o filósofo francês. "O homem está condenado a ser livre e ponto". Depois que o réu cumpre a pena no Brasil, acaba cumprindo pena por mais que o limite de 30 anos, o que é um problema para as instituições brasileiras. Segundo o ex-condenado e inexoravelmente ainda condenado, Jaçanã Barbosa, a pena no Brasil é "uma piada". "A gente termina de cumprir e fica essa coisa, né? Ninguém sabe se a gente agora vai tá preso, ou se mesmo preso a gente ainda tá livre... É uma piada". Autoridades, por outro lado, não veem problema no sistema penal brasileiro. "A condenação à liberdade é uma pena paralela à condenação à prisão. Uma não anula a outra. Todos os brasileiros, natos ou naturalizados, e também os estrangeiros, residentes ou não no Brasil, estão sendo condenados à liberdade, mas não podemos deixar que um pensador estrangeiro dite as normas no Brasil. Esta república é soberana e nós não abriremos mão de nossas decisões", diz Vilmar Meire, presidente do STF.


Outro problema é o volume de processos de condenações à liberdade, o que acaba entravando o judiciário. O STF já estuda a possibilidade de limitar as condenações aos brasileiros e impedir apelações, tornando as decisões em primeira instância inapeláveis. Mas Sartre acredita que tudo isso é desnecessário. "A condenação à liberdade independe de decisões judiciais. É próprio da existência do homem". Porém, Vilmar Meire rebate que "o estado democrático de direito não pode se curvar a filosofias da existência, sobretudo àquelas que não têm compromisso com a moral".


O filósofo francês diz que não se pronunciará mais sobre a questão, e convida os ministros à leitura de O Ser e o Nada. O presidente do STF classificou o convite de Sartre como um "desrespeito às instituições plenamente consolidadas da República Federativa do Brasil" e perguntou se não se tratava de "chiste de mau gosto". Completou que "no Brasil não existem condenações sem trânsito em julgado, e não será um francês de ideias desacreditadas que colocará abaixo nossa Carta Magna".

segunda-feira, 30 de março de 2009

Ratio FM

A lógica formal evoluiu, hoje em dia é mais difícil ser sofista. Mas inventar falácias ainda tem seu valor, se não for no plenário. Tentar inventar algumas (algumas não são falácias formais):


"Rex" geralmente é cachorro,
"Rex" significa "rei",
É, reis geralmente são cachorros.

Meninos maus não ganham mesada
Deputados do mensalão são meninos maus
Sem provas, os deputados nunca receberam mensalão.

Quem não gosta de samba, bom sujeito não é
O Papa não gosta de samba
Ergo, o Papa não é um bom sujeito

Dinheiro não traz felicidade
No dia de receber, ganhamos dinheiro
Infelizmente, o dia de receber não traz felicidade

Os cabeçudos são mais inteligentes
Os atores pornôs são cabeçudos
Cacete, atores pornôs são mais inteligentes

Os homens são todos iguais
Entre iguais não há diferença alguma
Eba, todos os homens são casados com a Juliana Paes

A Ratio FM volta depois dos comerciais.

Despertando do sono dogmático

- Ô Kant, acorda! - diz Hume, sacudindo o ombro do Kant.
- Ai ai, que é que foi, Hume? Nem! Acordar agora, de jeito nenhum! Tava tão gostoso, eu tava sonhando que Deus era um consenso na comunidade científica.
- Então, cara! Acorda! A metafísica já era!
- Faz-me rir. Me erra, Hume... vai dormir mais um pouco... minha peruca nem tá aqui e eu tenho um passeio pra fazer às 15h em ponto.
- Mas não tem como dormir depois que acorda!
- Tem! Esquece dos problemas e relaxa que cê dorme de novo.
- Mas a metafísica é coisa do passado! Quer ver? Pensa aí e vê se tem alguma coisa na sua cabeça que não veio da experiência...
- Não, Hume! Anem...
- Dá uma lida nesse Tratado aqui, que eu acabei de fazer, por favor!
E o Kant, morrendo de raiva, senta na cama, esfrega os olhos, pega a lente e esbraveja:
-Dê-me essa meleca aqui!
Hume, todo alegre, entrega o calhamaço e fica esperando. Kant vai passando o olho, fazendo uma leitura dinâmica: - Vai buscar um café pra mim, chato!
Enquanto Kant lê, vai perdendo o sono. Na centésima página, já está totalmente desperto. Não se sabe direito se pelo teor do tratado ou pelo café. Mas o Hume nunca foi esquecido pela falta de educação.

Sócrates

Sócrates está na praça Tubal Vilela, perambulando com sua túnica imunda, sendo seguido por alguns outros jovens mendigos que já se encantaram por ele. Seus olhos apontam para o chão, como quem reflete profundamente enquanto acaricia sua enorme barba. De repente, ele se senta num banco um pouco sujo. Seus seguidores se sentam ao chão. Todos observam uma senhora que vem cheia de sacolas, aparentando cansaço. Ela se senta ao lado de Sócrates e o pergunta:
- Está calor, não?
- Ó senhora, estou que não me agüento.
A velha achou estranho o modo de falar de Sócrates, mas não o suficiente para levantar-se.
- Você é daqui de Uberlândia?
- Venho de Atenas, já viajo há dias. Tenho sede e fome.
- Ah... Eu não tenho nada pra te ajudar, meu senhor.
- Não há problema. Há de haver alguma outra alma piedosa por aqui, não é mesmo?
- É. Deve ter, né?
Algo coçava dentro da velha para perguntar onde era Atenas. Mas ela era daquelas que não podiam ver alguém que já queria contar a própria vida. Escolheu o mais urgente:
-O senhor sabe que meu filho está me dando muito trabalho? Ele agora cismou que quer estudar um negócio que chama fisolofia... não... fifologia... nem sei o nome, para o senhor ver o tamanho da bobagem. Pra piorar, eu acho que ele está se enrolando com um rapaz. Deus quem me perdoe, mas é verdade. Meu senhor, eu acho que meu filho é um desses mossexual, pra não dizer um nome mais feio.
Sócrates escutava atentamente a velha. Arriscou ajudá-la:
- Teu rebento deve querer estudar Filosofia.
- Isso, essa bobagem aí. O menino fica lá falando umas doideiras o tempo todo, fazendo umas perguntas que ninguém sabe responder. E acha que aquilo é que é bom. Ele chegou no ponto de me dizer que não tem certeza de que eu existo. Pode? Eu falo pra ele apegar com Deus, mas ele não me ouve.
Sócrates deu um sorriso largo e olhou seus discípulos, todos tão alegres quanto ele. Então disse à velha:
- Preciso conhecer teu filho, ó bem-aventurada. É ele bonito?
- É, claro. Eu acho. Mas, porque o senhor está perguntando isso?
- Ora, talvez ele possa um dia visitar um dos nossos banquetes, embora eu não saiba quando poderemos participar de um.
- O senhor gosta desse negócio de sifolofia?
- Filosofo a mando do deus Apolo, ó senhora.
- Ah, não. Para mim a pessoa tem é que acreditar em Deus e ser justa.
- Sabes bem o que é a justiça?
- Isso eu sei! Sou justa, sigo a lei de Deus.
- Ora, então, o que esperas para contar-me sobre sua sabedoria? Vamos, bem-aventurada, conta-me logo o que é a justiça.
- E eu já não contei?
- Contaste?
- Claro, é seguir a lei de Deus, todo-poderoso.
- Pensas que ser justa é seguir os mandamentos da Igreja?
- Penso não. É assim.
- Ora, senhora, mas diz-me uma coisa: pensas que a justiça é uma virtude?
- Ó, eu tenho que ir embora fazer almoço, eu não sei o que é virtude, o seu papo está muito esquisito, eu acho que o senhor também é mossexual, porque o senhor está querendo conhecer meu filho perguntando se ele é bonito, além de o senhor ser silófoso. Eu não quero misturar com gente que nem o senhor. O senhor vai me desculpar, mas eu estou indo embora.
- Volta aqui! Não queres conversar mais? Eu preciso de ti, ó carcomida!
- O senhor que vá procurar conversa noutro lugar.
E parecido aconteceu com todos os outros interlocutores de Sócrates. Ele não entendeu como as pessoas poderiam estar tão desinteressadas dos assuntos importantes. Tentou voltar para Atenas, mas não conseguiu. Os jovens que o seguiam acabaram se cansando dele, migrando para as raves. Sócrates morreu na sarjeta e foi enterrado como indigente, depois de implorar de joelhos por um copo de cicuta. Seu demo, que vivia aconselhando-o, foi importunar um outro. Este, contudo, acabou sendo internado num hospício. O demo então passou para um terceiro, que acabou se tornando kardecista.