Alguns argumentos são falácias, mas são sempre decisivos numa discussão de boteco qualquer. É que nos bares os egos estão inflados, bêbados e todos estão gritando. Vamos falar de alguns desses argumentos:
Ad verecundiam: "O Einstein concorda comigo." Isso quando você está discutindo futebol. Ou política. E a platéia, ouriçada, pensa: "nossa, que cara inteligente, sabe tudo que o Einstein pensava, e o Einstein era quem concordava com ele."
Ad hominem: "Mas você assiste Big Brother, por que está falando mal do BBB?" Esse é o tipo que, em vez de argumentar a favor de sua tese, ataca o adversário. Logicamente é irrelevante um ataque desse, mas funciona bem com bêbados, que pensam: "nossa, que cara inteligente, acabou com o Fabinho e ainda por cima fez uma defesa indiscutível da qualidade do BBB."
O ad hominem ainda tem uma variante. Às vezes você está falando do Lula, por exemplo, e dizem: "ah, mas ele bebe, não tem um dedo, fede, faz metáforas de futebol, fala errado, aquela barba dele me irrita etc." Bom, o Einstein também não era nenhum Brad Pitt, então, a relatividade é conversa fiada. E logo esse tal de Einstein, que é um argumento forte quando estamos falando de futebol.
Ad ignorantiam: "Mas os ETs têm que existir, porque você não pode pensar que não existem num universo desse tamanho!" Esses ETs! Já que não tem como provar que não existem, existem. E vão nos matar...
Ad baculum: "Fala isso mais uma vez que eu vou embora." Este é um exemplo de ad baculum civilizado. O pior é: "fala isso mais uma vez que eu quebro sua mandíbula." Esta falácia é pouco eficaz contra lutadores de jiu-jitsu. Mas eles são os melhores nessa forma de argumentação. Que coerência!
Ad populum: "Ah, mas todo mundo vai votar no Lula (implícito: só você que não)." Incorporação de Duda Mendonça. Poderia chamar também argumento ad publicitarium. E tem aquela do "mas todo mundo prefere a churrascaria Tropeiro, seu burro!" Esse "todo mundo" é indiscutível mesmo.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Tipologia dos marxistas
Filósofo tem de vários tipos. Mas, em geral, os tipos só se diferenciam por seguidores de autores. P.ex.: nietzscheano costuma ser porra-louca; kantiano costuma ser correto, metódico e bem vestido; platônicos são arrogantes, acham que a filosofia terminou em Platão; e outros tipos. Entretanto, nenhuma escola tem tanta diferença tipológica quanto a marxista:
O religioso
Este tipo marxista é o mais comum. Para ele, entre o céu (que não existe) e a terra (que são as condições materiais de existência) há Marx, o profeta que indicou o caminho para a Terra prometida, cuja localização outros seguidores não souberam procurar direito. O capital funciona como um diabo cheio de artimanhas, que embotam o raciocínio daqueles que ainda não viram a luz marxista. "Reacionário" e "burguês" são adjetivos que estão para "pagão" e "lúcifer".
O inexorável
Para este marxista, meio stalinista, a história necessariamente ruma para o fim do capitalismo, que tem "contradições insolúveis" e "crises periódicas" que se intensificarão até a auto-destruição do sistema. Não tem Keynes que resolva. Nem boas intenções. A ciência de O Capital já deu o rumo da história, assim como um objeto cai em direção ao centro da Terra. O sitema ruirá. Vê quem é inteligente.
O contraditório burguês
Esse marxista é daqueles que não veem problema em amar Victor e Léo e ainda assim ser marxista roxo. E ainda dizem: "eu sou eu, cada um cada um". Individualistas que acreditam que marxismo é solidariedade, coisa de gente de bom coração, então viram socialistas. Em geral se informam pelo Jornal Nacional. "Consumista, sim, mas fútil, não". Na verdade, não sabem nem o que é marxismo, mas são.
O ponderado
O ponderado é o marxista que não demoniza o capitalismo nem os burgueses, nem acredita no socialismo inevitável, mas também vê os problemas de não ter autonomia, de ser guiado pela indústria. Porém, não faz nada, porque pondera que a revolução é impossível no mundo de hoje. Pondera tanto que é quietista. Pondera tanto que é chamado de "reaça" pelos religiosos, "burro" pelos inexoráveis e "babaca" pelos contraditórios burgueses. Nem é tido como marxista, mas ele sabe que é.
O ativista
Este tipo é o marxista das antigas, das Farc, do MST, do Hugo Chávez. Marxista mesmo, anti-imperialista, lutador, "o povo unido jamais será vencido", guerrilheiro, desestruturador do sistema. Nem precisa teoria, o negócio é luta. Nunca leu Marx, age Marx. E quem achar que Marx estava errado, toma tiro. Simples e direto. A luta de classes nunca precisou ler Marx pra acontecer, só acontecia.
O acadêmico
Esse marxista é defensor de uma escola marxista específica. Ou é gramsciano, ou é althusseriano, ou luckacsiano, ou leninista, ou trotskista, ou marciano, ou venusiano, ou lunático. Mas, mesmo os gramscianos, ficam nos gabinetes. Subversão? É ser boêmio no meio dessa sociedade escravizante; e dar aulas. No fundo, preferem o capitalismo, pois assim têm assunto acadêmico pra um pós-doutorado aqui e um livrinho acolá. Competitividade burguesa? É. E Deus os livre da liberdade alheia: aí, a ciência se torna senso-comum.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
A Náusea...
No Brasil, a pena máxima de liberdade é de 30 anos, mas, segundo Sartre, a pena deveria ser perpétua em todo o mundo. "Não existe condenação à liberdade por tempo limitado", afirma o filósofo francês. "O homem está condenado a ser livre e ponto". Depois que o réu cumpre a pena no Brasil, acaba cumprindo pena por mais que o limite de 30 anos, o que é um problema para as instituições brasileiras. Segundo o ex-condenado e inexoravelmente ainda condenado, Jaçanã Barbosa, a pena no Brasil é "uma piada". "A gente termina de cumprir e fica essa coisa, né? Ninguém sabe se a gente agora vai tá preso, ou se mesmo preso a gente ainda tá livre... É uma piada". Autoridades, por outro lado, não veem problema no sistema penal brasileiro. "A condenação à liberdade é uma pena paralela à condenação à prisão. Uma não anula a outra. Todos os brasileiros, natos ou naturalizados, e também os estrangeiros, residentes ou não no Brasil, estão sendo condenados à liberdade, mas não podemos deixar que um pensador estrangeiro dite as normas no Brasil. Esta república é soberana e nós não abriremos mão de nossas decisões", diz Vilmar Meire, presidente do STF.
Outro problema é o volume de processos de condenações à liberdade, o que acaba entravando o judiciário. O STF já estuda a possibilidade de limitar as condenações aos brasileiros e impedir apelações, tornando as decisões em primeira instância inapeláveis. Mas Sartre acredita que tudo isso é desnecessário. "A condenação à liberdade independe de decisões judiciais. É próprio da existência do homem". Porém, Vilmar Meire rebate que "o estado democrático de direito não pode se curvar a filosofias da existência, sobretudo àquelas que não têm compromisso com a moral".
O filósofo francês diz que não se pronunciará mais sobre a questão, e convida os ministros à leitura de O Ser e o Nada. O presidente do STF classificou o convite de Sartre como um "desrespeito às instituições plenamente consolidadas da República Federativa do Brasil" e perguntou se não se tratava de "chiste de mau gosto". Completou que "no Brasil não existem condenações sem trânsito em julgado, e não será um francês de ideias desacreditadas que colocará abaixo nossa Carta Magna".
Outro problema é o volume de processos de condenações à liberdade, o que acaba entravando o judiciário. O STF já estuda a possibilidade de limitar as condenações aos brasileiros e impedir apelações, tornando as decisões em primeira instância inapeláveis. Mas Sartre acredita que tudo isso é desnecessário. "A condenação à liberdade independe de decisões judiciais. É próprio da existência do homem". Porém, Vilmar Meire rebate que "o estado democrático de direito não pode se curvar a filosofias da existência, sobretudo àquelas que não têm compromisso com a moral".
O filósofo francês diz que não se pronunciará mais sobre a questão, e convida os ministros à leitura de O Ser e o Nada. O presidente do STF classificou o convite de Sartre como um "desrespeito às instituições plenamente consolidadas da República Federativa do Brasil" e perguntou se não se tratava de "chiste de mau gosto". Completou que "no Brasil não existem condenações sem trânsito em julgado, e não será um francês de ideias desacreditadas que colocará abaixo nossa Carta Magna".
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