segunda-feira, 30 de março de 2009

Sócrates

Sócrates está na praça Tubal Vilela, perambulando com sua túnica imunda, sendo seguido por alguns outros jovens mendigos que já se encantaram por ele. Seus olhos apontam para o chão, como quem reflete profundamente enquanto acaricia sua enorme barba. De repente, ele se senta num banco um pouco sujo. Seus seguidores se sentam ao chão. Todos observam uma senhora que vem cheia de sacolas, aparentando cansaço. Ela se senta ao lado de Sócrates e o pergunta:
- Está calor, não?
- Ó senhora, estou que não me agüento.
A velha achou estranho o modo de falar de Sócrates, mas não o suficiente para levantar-se.
- Você é daqui de Uberlândia?
- Venho de Atenas, já viajo há dias. Tenho sede e fome.
- Ah... Eu não tenho nada pra te ajudar, meu senhor.
- Não há problema. Há de haver alguma outra alma piedosa por aqui, não é mesmo?
- É. Deve ter, né?
Algo coçava dentro da velha para perguntar onde era Atenas. Mas ela era daquelas que não podiam ver alguém que já queria contar a própria vida. Escolheu o mais urgente:
-O senhor sabe que meu filho está me dando muito trabalho? Ele agora cismou que quer estudar um negócio que chama fisolofia... não... fifologia... nem sei o nome, para o senhor ver o tamanho da bobagem. Pra piorar, eu acho que ele está se enrolando com um rapaz. Deus quem me perdoe, mas é verdade. Meu senhor, eu acho que meu filho é um desses mossexual, pra não dizer um nome mais feio.
Sócrates escutava atentamente a velha. Arriscou ajudá-la:
- Teu rebento deve querer estudar Filosofia.
- Isso, essa bobagem aí. O menino fica lá falando umas doideiras o tempo todo, fazendo umas perguntas que ninguém sabe responder. E acha que aquilo é que é bom. Ele chegou no ponto de me dizer que não tem certeza de que eu existo. Pode? Eu falo pra ele apegar com Deus, mas ele não me ouve.
Sócrates deu um sorriso largo e olhou seus discípulos, todos tão alegres quanto ele. Então disse à velha:
- Preciso conhecer teu filho, ó bem-aventurada. É ele bonito?
- É, claro. Eu acho. Mas, porque o senhor está perguntando isso?
- Ora, talvez ele possa um dia visitar um dos nossos banquetes, embora eu não saiba quando poderemos participar de um.
- O senhor gosta desse negócio de sifolofia?
- Filosofo a mando do deus Apolo, ó senhora.
- Ah, não. Para mim a pessoa tem é que acreditar em Deus e ser justa.
- Sabes bem o que é a justiça?
- Isso eu sei! Sou justa, sigo a lei de Deus.
- Ora, então, o que esperas para contar-me sobre sua sabedoria? Vamos, bem-aventurada, conta-me logo o que é a justiça.
- E eu já não contei?
- Contaste?
- Claro, é seguir a lei de Deus, todo-poderoso.
- Pensas que ser justa é seguir os mandamentos da Igreja?
- Penso não. É assim.
- Ora, senhora, mas diz-me uma coisa: pensas que a justiça é uma virtude?
- Ó, eu tenho que ir embora fazer almoço, eu não sei o que é virtude, o seu papo está muito esquisito, eu acho que o senhor também é mossexual, porque o senhor está querendo conhecer meu filho perguntando se ele é bonito, além de o senhor ser silófoso. Eu não quero misturar com gente que nem o senhor. O senhor vai me desculpar, mas eu estou indo embora.
- Volta aqui! Não queres conversar mais? Eu preciso de ti, ó carcomida!
- O senhor que vá procurar conversa noutro lugar.
E parecido aconteceu com todos os outros interlocutores de Sócrates. Ele não entendeu como as pessoas poderiam estar tão desinteressadas dos assuntos importantes. Tentou voltar para Atenas, mas não conseguiu. Os jovens que o seguiam acabaram se cansando dele, migrando para as raves. Sócrates morreu na sarjeta e foi enterrado como indigente, depois de implorar de joelhos por um copo de cicuta. Seu demo, que vivia aconselhando-o, foi importunar um outro. Este, contudo, acabou sendo internado num hospício. O demo então passou para um terceiro, que acabou se tornando kardecista.

Um comentário:

  1. Excelente!Você defende um humor inteligente e apelativo que põe as pessoas a pensar e a questionar certas situações, um humor sarcástico e incisivo devidamente fundamentado, um humor alucinado com comparações surrealistas, um humor do “dia-a-dia”, um humor sem qualquer mensagem ou qualquer alvo a atingir e que faça as pessoas simplesmente esboçar nem que seja um simples sorriso.Parabéns.

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